Dedicado a Helena Terra

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

De Júlia Cortines

Última página

Antes de mergulhar no silêncio da morte,
ou da idade sentir a fraqueza e o torpor,
eu quisera lançar, num supremo transporte,
meu grito de revolta e meu grito de horror.

Mas sei que por mais forte e por mais estridente
que ela corra através do infinito, até vós,
ó céus, que além brilhais numa paz inclemente,
nem qual brando rumor chegará minha voz!

Mas sei que não há dor que a natureza vença,
e que nunca a fará de leve estremecer
na sua eternidade e sua indiferença
o lamento que vem dum transitório ser.

Mas sei que sobre a face execrável da terra,
onde cada alma sente, em torno, a solidão,
esse grito, que a dor duma existência encerra,
não irá ressoar em nenhum coração.

Contudo, num clamor de suprema energia,
eu quisera lançar minha voz! Mas a quem
enviar esse brado imenso de agonia,
se para o compreender não existe ninguém?!

(Vibrações, 1905)


Júlia Cortines (1868-1948) – Nasceu em Rio Bonito (RJ) e morreu no Rio de Janeiro (RJ). Publicou apenas dois livros, Versos (1894) e Vibrações (1905).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

De Dantas Mota



Sessentanos



Já nada mais me amarga a boca
Do que o bem que nunca tive.
Uma flor, um tudo, ou mesmo um nada
Foram o único bem que desejaria ter tido.

A hora é espessa ou expressa em dor,
Dependendo de tudo o que eu nutra
Em resíduo, ambiguidade, às vezes fuga,
O que dela de torna pudesse dar.

Seria vão propósito dar-lhe o que sido sou:
Um bem a mais não cobraria o nada a menos
Do que sido tenho, se não me multiplico,

Já que, dividido, me não quero,
Se somando-me ao que sou nada sou.
Dês que subtraindo cada vez mais me vou.



(Elegias do País das Gerais, 1988)




Dantas Mota (1913-1974) – Nasceu em Carvalhos (MG), estudou em Itanhandu e Belo Horizonte e radicou-se em Airuoca (MG). Publicou, entre outros, Anjo de Capote (1953), Epístola do São Francisco aos que vivem sob sua jurisdição, no vale (1955), Primeira epístola de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, aos ladrões ricos (1967). Sua obra completa está reunida em Elegias do País das Gerais (1988).





sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

De Edson Cruz  



Bibliotecas 


A biblioteca do pai de Borges
foi o fato capital de sua vida.
Ele nunca saiu dela, disse.

Em minha casa nunca tive
livros.
O fato capital de minha vida
é não ter tido pai.

Minha mãe foi minha biblioteca.
Ensinou-me tudo.
Nunca saí dela.
Era analfabeta e deveria
ter se chamado Alexandria.



(O canto verde das maritacas, 2015)



Edson Cruz (1959) - Nasceu em Ilhéus (BA) e mora em São Paulo. Publicou quatro livros de poemas: Sortilégio (2007), Sambaqui (2011), Ilhéu (2013) e O canto verde das maritacas (2015).

De Eustáquio Gorgone de Oliveira 



Manuscritos de Pouso Alto (36)



saio pelos campos a copiar
as árvores do ano passado
a lua presa em seus ramos.

pinturas fauves de um amor
que leva de mim seus corantes.

escorços de rubra casca
ela à frente das buganvílias.

faço telas de tintas fortes
amarelo da manga espada.

mas tudo se estraga no tempo
o corpo a arte o amor.


(Manuscritos de Pouso Alto, 2004)








Eustáquio Gorgone de Oliveira (1949-2010) - Nascido em Caxambu (MG), onde sempre morou, publicou, entre outros, Tear de imagens (1990), Girassol fixo (1995), Passagem da orfandade (1999), Manuscritos de Pouso Alto (2004) e Ossos naives (2004). 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016



De Heitor Ferraz Mello



A velha casa


Havia sempre no passado 
o momento de grande gargalhada. 
Corríamos pela casa 
como duas crianças 
e sacudíamos os lençóis 
com nossos corpos. 
Tínhamos em comum 
a admiração da lua 
e um certo jeito de olhar o mundo. 
E mesmo hoje no passado 
em que já nos encontramos distantes 
ainda corremos pela casa 
desabitada. 
E só. 

(Coisas imediatas, 2004)




Heitor Ferraz Mello (1964) - Nascido na França, passou a infância em São José dos Campos (SP) e aos 11 anos mudou-se em definitivo para São Paulo. Estreou em 1994 com Resumo dos dias, a que se seguiram, entre outros, A mesma noite (1997); Hoje como ontem ao meio-dia (2002); Coisas imediatas (2004) e Um a menos (2009).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016



De Affonso Romano de Sant'Anna 




Estão se adiantando


Eles estão se adiantando, os meus amigos. 
Sei que é útil a morte alheia 
para quem constrói seu fim. 
Mas eles estão indo, apressados, 
deixando filhos, obras, amores inacabados 
e revoluções por terminar. 

Não era isto o combinado. 

Alguns se despedem heróicos, 
outros serenos. Alguns se rebelam. 
O bom seria partir pleno. 

O que faço? Ainda agora 
um apressou seu desenlace. 
Sigo sem pressa. A morte 
exige trabalho, trabalho lento 
como quem nasce.


(O lado esquerdo do meu peito, 1992)



Affonso Romano de Sant'Anna (1937) - Mineiro de Belo Horizonte, ensaísta, cronista e poeta, publicou mais de uma dezena de livros, entre eles: A grande fala do índio guarani (1978), Que país é este? (1980), O lado esquerdo do meu peito (1992).   

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

De Augusto dos Anjos



Ricordanza della mia gioventù 



A minha ama-de-leite Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!

Minha ama, então, hipócrita, afetava
Susceptibilidade de menina:
"- Não, não fora ela! -" E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.

Vejo, entretanto, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha...

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!

(Eu, 1912)




Augusto dos Anjos (1884-1914) - Nascido no Engenho Pau D'Arco, em Sapé (PB), em 1903 mudou-se para o Recife para cursar Direito. Formado, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde deu aulas em vários estabelecimentos de ensino. Em 1914, morreu em Leopoldina (MG). Publicou apenas um livro, Eu, em 1912.