Dedicado a Helena Terra

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

De Gilka Machado


Ser mulher...



Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...


Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um Senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!


(Cristais partidos, 1915)








Gilka Machado (1893-1980) - Carioca, precursora da luta pela emancipação da mulher no Brasil, deixou publicados alguns volumes de poemas, como Cristais partidos (1915), Mulher nua (1922) e Meu glorioso pecado (1928).




segunda-feira, 26 de outubro de 2015

De Mário Quintana


Este quarto

Para Guilhermino César


Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

Que me importa esse quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...


(Apontamentos de História Sobrenatural, 1976)








Mário Quintana (1906-1994) - Gaúcho de Alegrete, aos 13 anos mudou-se para Porto Alegre. Publicou cerca de 20 livros, entre poemas e infantis, com destaque para A rua dos cataventos (1940), Canções (1946) e Caderno H (1973).



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

De Murilo Mendes


Os dois lados 

Deste lado tem meu corpo
tem o sonho
tem a minha namorada na janela
tem as ruas gritando de luzes e movimentos
tem meu amor tão lento
tem o mundo batendo na minha memória
tem o caminho pro trabalho.
Do outro lado tem outras vidas vivendo a minha vida
tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão
tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.


(Poemas, 1930)






Murilo Mendes (1901-1975) - Mineiro de Juiz de Fora, após morar no Rio de Janeiro estabeleceu-se em Roma (Itália) a partir de 1957. Publicou mais de uma dezena de livros, entre eles, A poesia em pânico (1937), Mundo enigma (1945), Contemplação de Ouro Preto (1954).





segunda-feira, 19 de outubro de 2015

De Ruy Espinheira Filho


Aqui estou eu, comigo


Aqui estou eu, comigo. Escuto a tarde.
Vozes distantes, um sino. Ocorre-me
jamais ter sonhado morar
nesta rua, nesta
velha casa de onze janelas
e canos de chumbo.
                                 Sonhei
e atingi outras coisas. Nenhuma,
porém, tocada, se cumpriu
como em minha esperança.
                                               Mais
que todas, saciam-me
estas paredes, construídas
há muito e não
para mim. Com as quais
nem sonhei
                   e assim não doem
em mim qualquer perda.


(Morte secreta e poesia anterior, 1984)







Ruy Espinheira Filho (1942) - Baiano de Salvador, onde mora. Ensaísta, romancista, contista e cronista, além de poeta, em sua vasta obra, destacam-se As sombras luminosas (1982), Memória da chuva (1986),  Elegia de agosto e outros poemas (2005), Estação infinita e outras estações (2012).


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

De Raimundo Correia

Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce, 
Tudo o que punge, tudo o que devora
 
O coração, no rosto se estampasse;
 
  
Se se pudesse o espírito que chora,
 
Ver através da máscara da face,
 
Quanta gente, talvez, que inveja agora
 
Nos causa, então piedade nos causasse!
 
  
Quanta gente que ri, talvez, consigo
 
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
 
Como invisível chaga cancerosa!
 
  
Quanta gente que ri, talvez existe,
 
Cuja ventura única consiste
 
Em parecer aos outros venturosa!

(Sinfonias, 1883)









Raimundo Correia (1859-1911) - Maranhense de São Luís, publicou apenas cinco volumes de poemas: Primeiros sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e versões (1877), Aleluias (1891) e Poesias (1898). 





domingo, 11 de outubro de 2015

De Jorge de Lima


Canto V - Poema VI


Também há as naus que não chegam
mesmo sem ter naufragado:
não porque nunca tivessem
quem as guiasse no mar
ou não tivessem velame
ou leme ou âncora ou vento
ou porque se embebedassem
ou rotas se despregassem,
mas simplesmente porque
já estavam podres no tronco
da árvore de que as tiraram.


(Invenção de Orfeu, 1952)






Jorge de Lima (1893-1953) - Alagoano de União dos Palmares, radicou-se no Rio de Janeiro a partir de 1930. Além de poeta, dedicou-se ao romance, ao ensaio e à pintura. Entre seus livros mais importantes estão A túnica inconsútil (1938), Poemas negros (1947), Livro de sonetos (1949) e A invenção de Orfeu (1952).




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

De Ferreira Gullar


A casa


         Debaixo do assoalho da casa
no talco preto da terra prisioneira,
         quem fala?
                         naquela
noite menor sob os pés da família
naquele
território sem flor
                         debaixo das velhas tábuas
que pisamos pisamos pisamos
quando o sol ia alto
                  quando o sol já morria
                   quando o sol já morria
                   e eu morria
         quem fala?
         quem falou? quem falará?
na lingua de fogo azul do país debaixo da casa?

                      Fala talvez
             ali
a moeda que uma tarde rolou (a moeda uma tarde) rolou
                                  e se apagou naquele solo lunar
Fala
talvez um rato
que nos ouvia de sob as tábuas
e conosco aprendeu a mentir
e amar
(no nosso desamparo em São Luís do Maranhão
na Camboa
dentro do sistema solar
entre constelações que da janela víamos
         num relance)
        
                            Fala
talvez o rato morto fedendo até secar
         E ninguém mais?
         E o verão? E as chuvas
torrenciais? E a classe
operária? As poucas
festas de aniversário
         nao falam?
         A rede suja, a bilha
na janela, o girassol
no saguão clamando contra o muro
         as formigas
         no cimento da cozinha
         Bizuza
         morta
Maria Lúcia, Adi, Papai
         mortos
         não falam.
             Mas gira, planeta, gira
             oceanos azuis da minha vida
             sonhos, amores, meus
                poemas de ferro,
                minha luta comum,
                            gira,
                                    planeta

         E sobre as tábuas
a nossa vida, os nossos móveis,
a cadeira de embalo, a mesa de jantar,
         o guarda-roupa
         com seu espelho onde a tarde dançava rindo
         feito uma menina
         e as janelas abertas
por onde o espaço como um pássaro
         fugia
         sobrevoava as casas e rumava
num sonho
         para as cidades do sul

(Dentro da noite veloz, 1975)








Ferreira Gullar (1930) - Maranhense de São Luís, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1951. Permaneceu no exílio entre 1971 e 1977. Ensaísta, dramaturgo, artista plástico, publicou, entre outros, A luta corporal (1954), Dentro da noite veloz (1975), Poema sujo (1976), Em alguma parte alguma (2000). 








segunda-feira, 5 de outubro de 2015

De Cecília Meireles


Romance LXXXIV - 
Dos cavalos da Inconfidência


Eles eram muitos cavalos,
ao longo dessas grandes serras,
de crinas abertas ao vento,
a galope entre águas e pedras.
Eles eram muitos cavalos,
donos dos ares e das ervas,
com tranquilos olhos macios,
habituados às densas névoas,
aos verdes prados ondulosos,
às encostas de árduas arestas;
à cor das auroras nas nuvens,
ao tempo de ipês e quaresmas.

Eles eram muitos cavalos
nas margens desses grandes rios
por onde os escravos cantavam
músicas cheias de suspiros.
Eles eram muitos cavalos
e guardavam no fino ouvido
o som das catas e dos cantos,
a voz de amigos e inimigos;
  calados, ao peso da sela,
picados de insetos e espinhos,
desabafando o seu cansaço
em crepusculares relinchos.

Eles eram muitos cavalos,
rijos, destemidos, velozes
entre Mariana e Serro Frio,
Vila Rica e Rio das Mortes.
Eles eram muitos cavalos,
transportando no seu galope
coronéis, magistrados, poetas,
furriéis, alferes, sacerdotes.
E ouviam segredos e intrigas,
e sonetos e liras e odes:
testemunhas sem depoimento,
diante de equívocos enormes.

Eles eram muitos cavalos,
entre Mantiqueira e Ouro Branco,
desmanchado o xisto nos cascos,
ao sol e à chuva, pelos campos,
levando esperanças, mensagens,
transmitidas de rancho em rancho.
Eles eram muitos cavalos,
entre sonhos e contrabandos,
alheios às paixões dos donos,
pousando os mesmos olhos mansos
nas grotas, repletas de escravos,
nas igrejas, cheias de santos.

Eles eram muitos cavalos:
e uns viram correntes e algemas,
outros, o sangue sobre a forca,
outros, o crime e as recompensas.
Eles eram muitos cavalos:
e alguns foram postos à venda,
outros ficaram nos seus pastos,
e houve uns que, depois da sentença,
levaram o Alferes cortado
em braços, pernas e cabeça.
E partiram com sua carga
na mais dolorosa inocência.

Eles eram muitos cavalos.
E morreram por esses montes,
esses campos, esses abismos,
tendo servido a tantos homens.
Eles eram muitos cavalos,
mas ninguêm mais sabe os seus nomes
sua pelagem, sua origem...
E iam tão alto, e iam tão longe!
E por eles se suspirava,
consultando o imenso horizonte!
Morreram seus flancos robustos,
que pareciam de ouro e bronze.

Eles eram muitos cavalos.
E jazem por aí, caídos,
misturados às bravas serras,
misturados ao quartzo e ao xisto,
à frescura aquosa das lapas,
ao verdor do trevo florido.
E nunca pensaram na morte.
E nunca souberam de exílios.
Eles eram muitos cavalos,
cumprindo seu duro serviço.
A cinza de seus cavaleiros
neles aprendeu tempo e ritmo,
e a subir aos picos do mundo...
e a rolar pelos precipícios...



(Romanceiro da Inconfidência, 1953)







Cecília Meireles (1901-1964) - Carioca. Educadora, cronista, ensaísta, publicou mais de uma dezena de livros de poemas, incluindo alguns infantis. Entre eles:Viagem (1939), Mar absoluto (1945), Romanceiro da Inconfidência (1953) e Giroflê, giroflá (1956).

sábado, 3 de outubro de 2015

De Donizete Galvão


Escoiceados

Meu pai e eu
nunca subimos
num alazão
que galopasse
ao vento.
Tínhamos 
um burro
cinza-malhado:
o Ligeiro.
Foi apanhado
de um conhecido
por ninharia.
Chegou com fama
de sistemático,
cheio de refugos.
De trote tão curto
que dava dor
nas costelas.
De certa vez,
caímos do burro.
Meu pai e eu.
Eu e meu pai
Embolados.
Joelhos esfolados
no pedregulho.
Levamos
bons coices.
Meu pai e eu.
Os dois
nunca subimos
na vida.

(Ruminações, 2000)





Donizete Galvão (1955-2014) - Mineiro de Borda da Mata, radicou-se em São Paulo a partir de 1979. Estreou com Azul navalha, em 1988. Publicou outros seis livros, entre eles, A carne e o tempo (1997),  Ruminações (2000) e O homem inacabado (2010).