Dedicado a Helena Terra

segunda-feira, 23 de maio de 2016

De Fabrício Carpinejar



Meus irmãos colecionavam selos, moedas,
borboletas e revistas.
Eu, silêncios.

A brisa se mistura aos cheiros das lembranças.
É como se eu estivesse regressando.

Posso brincar lá fora?

O pampa é meu pátio.
Como dói a porta fechada por dentro.
Não é ter para onde ir é uma forma de sempre chegar.


(Biografia de uma árvore, 2002)




Fabrício Carpinejar (1972) - Gaúcho de Caxias do Sul, é também cronista e autor de literatura infantil. Estreou em 1998 com As solas do sol e depois publicou cerca de uma dezena de coletâneas de poemas, como Um terno de pássaros ao sul (2000), Terceira sede (2001), Biografia de uma árvore (2002), Meu filho, minha filha (2006) e Todas as mulheres (2015).




segunda-feira, 2 de maio de 2016

De Guilherme de Almeida


Mormaço


Calor. E as ventarolas das palmeiras
e os leques das bananeiras
abanam devagar
inutilmente na luz perpendicular.
Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:
não há borboletas azuis nem rolas líricas
apenas as taturanas
escorrem quase líquidas
na relva que estala como um esmalte.
E longe uma última romântica
- uma araponga metálica – bate
 o bico de bronze na atmosfera timpânica.


(Meu, 1925)


Guilherme de Almeida (1890-1969) - Poeta, tradutor, publicou mais de duas dezenas de coleções de poemas, reunidos em Toda poesia (1952) e Meus versos mais queridos (1967).


domingo, 17 de abril de 2016

De Gilberto Nable



O tratador de canários – IV


De mim pequenos hábitos se perderam:
já não desço à beira do rio
para meditar na tarde,
nem consulto mais relógio.

Perderam-se também muitas certezas,
e para desde sempre a calma.
A calma que, conforme me disseram,
Chegaria com a idade.

Pouco chegou, o mais se foi.
Doce carícia do vento,
janela aberta para o mar,
criança brincando na areia.

Sim, o mais se foi.


(O tratador de canários, 2010)




Gilberto Nable (1954) - Mineiro de Aiuruoca, mora em Belo Horizonte (MG). Publicou, entre outros, Percurso da ausência (2006), Mago sem pombos (2008) e O tratador de canários (2010).

domingo, 10 de abril de 2016

De Castro Alves

Quando eu morrer




Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.

Junqueira Freire



Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro a boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.


Têm os fogos  —  errantes — por santelmo.
Têm por velame  — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas  —  o mocho funerário...

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."

Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
... Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!... 





Castro Alves (1847-1871) - Nascido em uma cidade baiana que hoje leva seu nome, estudou em Recife e em São Paulo. Abolicionista, dedicou-se à poesia e ao teatro. Morto aos 24 anos, em vida publicou apenas Espumas flutuantes (1871).  Postumamente, saíram A cachoeira de Paulo Afonso (1873), Os escravos (1873), poemas, e Gonzaga ou A Revolução de Minas (1873), teatro. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

De Carlos Pena Filho

A solidão e sua porta 
                        
                       A Francisco Brennand


Quando mais nada resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar
Deixando-te sozinho na batalha

A arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

(Livro geral, 1959)




Carlos Pena Filho (1929-1960) - Nascido em Recife (PE), com a separação dos pais transferiu-se para Portugal, onde viveu dos oito aos 12 anos. Advogado e jornalista, morreu em sua cidade-natal em um acidente automobilístico, deixando quatro livros de poemas: O tempo da busca (1952), Memórias do Boi Serapião (1956), A vertigem lúcida (1958) e Livro geral (1959).

segunda-feira, 21 de março de 2016

De Alberto de Oliveira


Horas mortas


Breve momento, após comprido dia 
de incômodos, de penas, de cansaço, 
inda o corpo a sentir quebrado e lasso, 
posso a ti me entregar, doce Poesia.
Desta janela aberta, à luz tardia 
do luar em cheio a clarear no espaço, 
vejo-te vir, ouço-te o leve passo 
na transparência azul da noite fria.
Chegas. O ósculo teu me vivifica. 
Mas é tão tarde! Rápido flutuas, 
tornando logo à etérea imensidade;
e na mesa a que escrevo apenas fica 
sobre o papel — rastro das asas tuas, 
um verso, um pensamento, uma saudade. 



(Poesias, 3ª série, 1913)

Alberto de Oliveira (1857-1937) – Nasceu em Saquarema (RJ) e morreu em Niterói (RJ), após morar em diversas cidades fluminenses. Estreou com Canções românticas (1878) e publicou quatro volumes intitulados Poesias, entre 1912 e 1927, que englobam toda a sua obra.

segunda-feira, 14 de março de 2016

De Ana Martins Marques



Coleção 


Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não 
viagens

lepidópteros
mas não 
seu vôo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções

(A vida submarina, 2009)




Ana Martins Marques (1977) -  Nasceu em Belo Horizonte (MG), onde mora. Tem três livros de poemas publicados: A vida submarina (2009), Da arte das armadilhas (2011) e o O livro das semelhanças (2015).




segunda-feira, 7 de março de 2016

De Narcisa Amália


Por que sou forte


Dirás que é falso. Não. É certo. Desço
Ao fundo d’alma toda vez que hesito...
Cada vez que uma lágrima ou que um grito
Trai-me a angústia - ao sentir que desfaleço...

E toda assombro, toda amor, confesso,
O limiar desse país bendito
Cruzo: - aguardam-me as festas do infinito!
O horror da vida, deslumbrada, esqueço!

É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,

E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!...
- E eis-me de novo forte para a luta.

(Nebulosas, 1872)




Narcisa Amália (1856-1924) – Nasceu em São João da Barra (RJ) e morreu no Rio de Janeiro em 1924. Feminista, republicana, abolicionista, foi a primeira jornalista profissional do Brasil. Publicou apenas um livro, Nebulosas, em 1872.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

De Júlia Cortines

Última página

Antes de mergulhar no silêncio da morte,
ou da idade sentir a fraqueza e o torpor,
eu quisera lançar, num supremo transporte,
meu grito de revolta e meu grito de horror.

Mas sei que por mais forte e por mais estridente
que ela corra através do infinito, até vós,
ó céus, que além brilhais numa paz inclemente,
nem qual brando rumor chegará minha voz!

Mas sei que não há dor que a natureza vença,
e que nunca a fará de leve estremecer
na sua eternidade e sua indiferença
o lamento que vem dum transitório ser.

Mas sei que sobre a face execrável da terra,
onde cada alma sente, em torno, a solidão,
esse grito, que a dor duma existência encerra,
não irá ressoar em nenhum coração.

Contudo, num clamor de suprema energia,
eu quisera lançar minha voz! Mas a quem
enviar esse brado imenso de agonia,
se para o compreender não existe ninguém?!

(Vibrações, 1905)


Júlia Cortines (1868-1948) – Nasceu em Rio Bonito (RJ) e morreu no Rio de Janeiro (RJ). Publicou apenas dois livros, Versos (1894) e Vibrações (1905).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

De Dantas Mota



Sessentanos



Já nada mais me amarga a boca
Do que o bem que nunca tive.
Uma flor, um tudo, ou mesmo um nada
Foram o único bem que desejaria ter tido.

A hora é espessa ou expressa em dor,
Dependendo de tudo o que eu nutra
Em resíduo, ambiguidade, às vezes fuga,
O que dela de torna pudesse dar.

Seria vão propósito dar-lhe o que sido sou:
Um bem a mais não cobraria o nada a menos
Do que sido tenho, se não me multiplico,

Já que, dividido, me não quero,
Se somando-me ao que sou nada sou.
Dês que subtraindo cada vez mais me vou.



(Elegias do País das Gerais, 1988)




Dantas Mota (1913-1974) – Nasceu em Carvalhos (MG), estudou em Itanhandu e Belo Horizonte e radicou-se em Airuoca (MG). Publicou, entre outros, Anjo de Capote (1953), Epístola do São Francisco aos que vivem sob sua jurisdição, no vale (1955), Primeira epístola de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, aos ladrões ricos (1967). Sua obra completa está reunida em Elegias do País das Gerais (1988).





sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

De Edson Cruz  



Bibliotecas 


A biblioteca do pai de Borges
foi o fato capital de sua vida.
Ele nunca saiu dela, disse.

Em minha casa nunca tive
livros.
O fato capital de minha vida
é não ter tido pai.

Minha mãe foi minha biblioteca.
Ensinou-me tudo.
Nunca saí dela.
Era analfabeta e deveria
ter se chamado Alexandria.



(O canto verde das maritacas, 2015)



Edson Cruz (1959) - Nasceu em Ilhéus (BA) e mora em São Paulo. Publicou quatro livros de poemas: Sortilégio (2007), Sambaqui (2011), Ilhéu (2013) e O canto verde das maritacas (2015).

De Eustáquio Gorgone de Oliveira 



Manuscritos de Pouso Alto (36)



saio pelos campos a copiar
as árvores do ano passado
a lua presa em seus ramos.

pinturas fauves de um amor
que leva de mim seus corantes.

escorços de rubra casca
ela à frente das buganvílias.

faço telas de tintas fortes
amarelo da manga espada.

mas tudo se estraga no tempo
o corpo a arte o amor.


(Manuscritos de Pouso Alto, 2004)








Eustáquio Gorgone de Oliveira (1949-2010) - Nascido em Caxambu (MG), onde sempre morou, publicou, entre outros, Tear de imagens (1990), Girassol fixo (1995), Passagem da orfandade (1999), Manuscritos de Pouso Alto (2004) e Ossos naives (2004). 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016



De Heitor Ferraz Mello



A velha casa


Havia sempre no passado 
o momento de grande gargalhada. 
Corríamos pela casa 
como duas crianças 
e sacudíamos os lençóis 
com nossos corpos. 
Tínhamos em comum 
a admiração da lua 
e um certo jeito de olhar o mundo. 
E mesmo hoje no passado 
em que já nos encontramos distantes 
ainda corremos pela casa 
desabitada. 
E só. 

(Coisas imediatas, 2004)




Heitor Ferraz Mello (1964) - Nascido na França, passou a infância em São José dos Campos (SP) e aos 11 anos mudou-se em definitivo para São Paulo. Estreou em 1994 com Resumo dos dias, a que se seguiram, entre outros, A mesma noite (1997); Hoje como ontem ao meio-dia (2002); Coisas imediatas (2004) e Um a menos (2009).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016



De Affonso Romano de Sant'Anna 




Estão se adiantando


Eles estão se adiantando, os meus amigos. 
Sei que é útil a morte alheia 
para quem constrói seu fim. 
Mas eles estão indo, apressados, 
deixando filhos, obras, amores inacabados 
e revoluções por terminar. 

Não era isto o combinado. 

Alguns se despedem heróicos, 
outros serenos. Alguns se rebelam. 
O bom seria partir pleno. 

O que faço? Ainda agora 
um apressou seu desenlace. 
Sigo sem pressa. A morte 
exige trabalho, trabalho lento 
como quem nasce.


(O lado esquerdo do meu peito, 1992)



Affonso Romano de Sant'Anna (1937) - Mineiro de Belo Horizonte, ensaísta, cronista e poeta, publicou mais de uma dezena de livros, entre eles: A grande fala do índio guarani (1978), Que país é este? (1980), O lado esquerdo do meu peito (1992).   

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

De Augusto dos Anjos



Ricordanza della mia gioventù 



A minha ama-de-leite Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!

Minha ama, então, hipócrita, afetava
Susceptibilidade de menina:
"- Não, não fora ela! -" E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.

Vejo, entretanto, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha...

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!

(Eu, 1912)




Augusto dos Anjos (1884-1914) - Nascido no Engenho Pau D'Arco, em Sapé (PB), em 1903 mudou-se para o Recife para cursar Direito. Formado, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde deu aulas em vários estabelecimentos de ensino. Em 1914, morreu em Leopoldina (MG). Publicou apenas um livro, Eu, em 1912.


domingo, 31 de janeiro de 2016


De Ivan Junqueira



Vai tudo em mim, enfim, se despedindo
neste pomar sem ramos ou maçãs,
sem sol, sem hera ou relva, sem manhãs
que me recordem o que foi e é findo.

Tudo se faz sombrio, e as sombras vãs
do que eu não fui agora vão cobrindo
os ermos epitáfios, indo e vindo
entre hermas e as lápides mais chãs.

Tudo se esvai num remoinho infindo
de atávicas moléculas malsãs:
essas do avô, do pai e das irmãs
que o sangue foi à alma transmitindo.

Tudo o que eu fui em mim de mim fugindo
em meu encalço vem me perseguindo.



(O outro lado, 2007)





Ivan Junqueira (1934-2014) - Nasceu e morreu no Rio de Janeiro. Ensaísta, tradutor e poeta, publicou apenas sete volumes de poemas, entre eles: Os mortos (1964), Cinco movimentos (1982), A sagração dos ossos (1994) e O outro lado (2007).