Dedicado a Helena Terra

domingo, 10 de abril de 2016

De Castro Alves

Quando eu morrer




Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.

Junqueira Freire



Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro a boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.


Têm os fogos  —  errantes — por santelmo.
Têm por velame  — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas  —  o mocho funerário...

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."

Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
... Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!... 





Castro Alves (1847-1871) - Nascido em uma cidade baiana que hoje leva seu nome, estudou em Recife e em São Paulo. Abolicionista, dedicou-se à poesia e ao teatro. Morto aos 24 anos, em vida publicou apenas Espumas flutuantes (1871).  Postumamente, saíram A cachoeira de Paulo Afonso (1873), Os escravos (1873), poemas, e Gonzaga ou A Revolução de Minas (1873), teatro. 

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