Dedicado a Helena Terra

domingo, 17 de abril de 2016

De Gilberto Nable



O tratador de canários – IV


De mim pequenos hábitos se perderam:
já não desço à beira do rio
para meditar na tarde,
nem consulto mais relógio.

Perderam-se também muitas certezas,
e para desde sempre a calma.
A calma que, conforme me disseram,
Chegaria com a idade.

Pouco chegou, o mais se foi.
Doce carícia do vento,
janela aberta para o mar,
criança brincando na areia.

Sim, o mais se foi.


(O tratador de canários, 2010)




Gilberto Nable (1954) - Mineiro de Aiuruoca, mora em Belo Horizonte (MG). Publicou, entre outros, Percurso da ausência (2006), Mago sem pombos (2008) e O tratador de canários (2010).

domingo, 10 de abril de 2016

De Castro Alves

Quando eu morrer




Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.

Junqueira Freire



Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro a boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.


Têm os fogos  —  errantes — por santelmo.
Têm por velame  — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas  —  o mocho funerário...

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."

Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
... Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!... 





Castro Alves (1847-1871) - Nascido em uma cidade baiana que hoje leva seu nome, estudou em Recife e em São Paulo. Abolicionista, dedicou-se à poesia e ao teatro. Morto aos 24 anos, em vida publicou apenas Espumas flutuantes (1871).  Postumamente, saíram A cachoeira de Paulo Afonso (1873), Os escravos (1873), poemas, e Gonzaga ou A Revolução de Minas (1873), teatro. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

De Carlos Pena Filho

A solidão e sua porta 
                        
                       A Francisco Brennand


Quando mais nada resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar
Deixando-te sozinho na batalha

A arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

(Livro geral, 1959)




Carlos Pena Filho (1929-1960) - Nascido em Recife (PE), com a separação dos pais transferiu-se para Portugal, onde viveu dos oito aos 12 anos. Advogado e jornalista, morreu em sua cidade-natal em um acidente automobilístico, deixando quatro livros de poemas: O tempo da busca (1952), Memórias do Boi Serapião (1956), A vertigem lúcida (1958) e Livro geral (1959).