Dedicado a Helena Terra

segunda-feira, 21 de março de 2016

De Alberto de Oliveira


Horas mortas


Breve momento, após comprido dia 
de incômodos, de penas, de cansaço, 
inda o corpo a sentir quebrado e lasso, 
posso a ti me entregar, doce Poesia.
Desta janela aberta, à luz tardia 
do luar em cheio a clarear no espaço, 
vejo-te vir, ouço-te o leve passo 
na transparência azul da noite fria.
Chegas. O ósculo teu me vivifica. 
Mas é tão tarde! Rápido flutuas, 
tornando logo à etérea imensidade;
e na mesa a que escrevo apenas fica 
sobre o papel — rastro das asas tuas, 
um verso, um pensamento, uma saudade. 



(Poesias, 3ª série, 1913)

Alberto de Oliveira (1857-1937) – Nasceu em Saquarema (RJ) e morreu em Niterói (RJ), após morar em diversas cidades fluminenses. Estreou com Canções românticas (1878) e publicou quatro volumes intitulados Poesias, entre 1912 e 1927, que englobam toda a sua obra.

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