Dedicado a Helena Terra

segunda-feira, 21 de março de 2016

De Alberto de Oliveira


Horas mortas


Breve momento, após comprido dia 
de incômodos, de penas, de cansaço, 
inda o corpo a sentir quebrado e lasso, 
posso a ti me entregar, doce Poesia.
Desta janela aberta, à luz tardia 
do luar em cheio a clarear no espaço, 
vejo-te vir, ouço-te o leve passo 
na transparência azul da noite fria.
Chegas. O ósculo teu me vivifica. 
Mas é tão tarde! Rápido flutuas, 
tornando logo à etérea imensidade;
e na mesa a que escrevo apenas fica 
sobre o papel — rastro das asas tuas, 
um verso, um pensamento, uma saudade. 



(Poesias, 3ª série, 1913)

Alberto de Oliveira (1857-1937) – Nasceu em Saquarema (RJ) e morreu em Niterói (RJ), após morar em diversas cidades fluminenses. Estreou com Canções românticas (1878) e publicou quatro volumes intitulados Poesias, entre 1912 e 1927, que englobam toda a sua obra.

segunda-feira, 14 de março de 2016

De Ana Martins Marques



Coleção 


Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não 
viagens

lepidópteros
mas não 
seu vôo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções

(A vida submarina, 2009)




Ana Martins Marques (1977) -  Nasceu em Belo Horizonte (MG), onde mora. Tem três livros de poemas publicados: A vida submarina (2009), Da arte das armadilhas (2011) e o O livro das semelhanças (2015).




segunda-feira, 7 de março de 2016

De Narcisa Amália


Por que sou forte


Dirás que é falso. Não. É certo. Desço
Ao fundo d’alma toda vez que hesito...
Cada vez que uma lágrima ou que um grito
Trai-me a angústia - ao sentir que desfaleço...

E toda assombro, toda amor, confesso,
O limiar desse país bendito
Cruzo: - aguardam-me as festas do infinito!
O horror da vida, deslumbrada, esqueço!

É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,

E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!...
- E eis-me de novo forte para a luta.

(Nebulosas, 1872)




Narcisa Amália (1856-1924) – Nasceu em São João da Barra (RJ) e morreu no Rio de Janeiro em 1924. Feminista, republicana, abolicionista, foi a primeira jornalista profissional do Brasil. Publicou apenas um livro, Nebulosas, em 1872.