Dedicado a Helena Terra

domingo, 31 de janeiro de 2016


De Ivan Junqueira



Vai tudo em mim, enfim, se despedindo
neste pomar sem ramos ou maçãs,
sem sol, sem hera ou relva, sem manhãs
que me recordem o que foi e é findo.

Tudo se faz sombrio, e as sombras vãs
do que eu não fui agora vão cobrindo
os ermos epitáfios, indo e vindo
entre hermas e as lápides mais chãs.

Tudo se esvai num remoinho infindo
de atávicas moléculas malsãs:
essas do avô, do pai e das irmãs
que o sangue foi à alma transmitindo.

Tudo o que eu fui em mim de mim fugindo
em meu encalço vem me perseguindo.



(O outro lado, 2007)





Ivan Junqueira (1934-2014) - Nasceu e morreu no Rio de Janeiro. Ensaísta, tradutor e poeta, publicou apenas sete volumes de poemas, entre eles: Os mortos (1964), Cinco movimentos (1982), A sagração dos ossos (1994) e O outro lado (2007). 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

De José Albano



Soneto I


Poeta fui e do áspero destino
Senti bem cedo a mão pesada e dura.
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.

Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana mas tão pouco dura;
E inda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.

Porém, como me agora vejo isento
Dos sonhos que sonhava noute e dia
E só com saüdades me atormento;

Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento,
Senão de ter cantado o que sofria.

(Rimas de José Albano, 1912)




José Albano (1882-1923) - Nascido em Fortaleza (CE), na juventude estudou em várias escolas da Europa. Voltou para Fortaleza, morou no Rio de Janeiro, e em 1908 entrou para o serviço diplomático, permanecendo em Londres até 1912. Viajou pela Europa, Ásia e África, voltando para o Brasil com a eclosão da I Guerra Mundial. Em 1918, fixou-se definitivamente em Paris, onde morreu. Publicou em vida sete livros, entre eles Rimas de José Albano (1912) e Antologia poética de José Albano (1918).


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

De Ascânio Lopes


O revoltado

A sirena apitou longamente
fazendo parar os teares e as máquinas.
Ele vestiu o paletó e saiu para o bairro pobre
onde mora, numa casa pobre.
As suas mãos estão calejadas.
O corpo dolorido anseia um descanso infinito desconhecido.
Olha só para a frente, sem se importar com quem passa.
Parou pensando uma coisa
e brilhou no seu olhar o ódio contido
faiscou rápido o desejo insatisfeito.
Pôs-se a andar.
Os grandes olhos abertos, mas sem lágrimas.


(1928?)



Ascânio Lopes (1906-1929) - Nascido em Ubá (MG), foi criado em Cataguases (MG). Estudou Direito em Belo Horizonte (MG), mas antes de se formar voltou para sua cidade adotiva e morreu de tuberculose aos 23 anos incompletos. Deixou publicado Poemas cronológicos (1928). Sua obra completa está reunida em Ascânio Lopes - todos os caminhos possíveis (2005, org. de Luiz Ruffato).
  

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

De Francisca Júlia


Outra vida


Se o dia de hoje é igual ao dia que me espera
depois, resta-me, entanto, o consolo incessante
de sentir, sob os pés, a cada passo adiante,
que se muda o meu chão para o chão de outra esfera.

Eu não me esquivo à dor nem maldigo a severa
lei que me condenou à tortura constante;
porque em tudo adivinho a morte a todo instante,
abro o seio, risonha, à mão que o dilacera.

No ambiente que me envolve há trevas do seu luto;
na minha solidão a sua voz escuto,
e sinto, contra o meu, o seu hálito frio.

Morte, curta é a jornada e o meu fim está perto!
Feliz, contigo irei, sem olhar o deserto
que deixo atrás de mim, vago, imenso, vazio...

(1919)



Francisca Júlia (1871-1920) - Nascida em Eldorado (SP), trabalhou como jornalista em São Paulo onde, a partir da publicação de Mármores, em 1895, adquire certa celebridade. Lançou em 1903 outra coletânea de poemas, Esfinges, e três anos depois, sem nenhuma razão aparente, abandona a vida pública e vai morar em Cabreúvas, no interior do Estado. Volta a São Paulo em 1908, casa-se no ano seguinte e se isola de todos, envolvida com experiências místicas. Em 1920, suicida-se, um dia após a morte do marido. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

De Manuel Bandeira




A morte absoluta 



Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.


(Lira dos Cinquent'Anos, 1940)



Manuel Bandeira (1886-1968) - Poeta, cronista, ensaísta, publicou duas dezenas de livros, entre eles: Poesias (1924), Libertinagem (1930), Estrela da manhã (1936), Estrela da tarde (1963) e Estrela da vida inteira (1966), todos de poemas, além de Itinerário de Pasárgada (1954), memórias, e Andorinha, andorinha (1966), crônicas.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

De Mário de Andrade 


Poema Acreano (Descobrimento)


Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! muito longe
                                                                                        [de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.


(Clã do Jabuti,  1927)


Mário de Andrade (1893-1945) Romancista, contista, cronista, ensaísta e folclorista, além de poeta, publicou, entre outros, Paulicéia desvairada (1922), Losango cáqui (1926) e Clã do Jabuti (1927), poemas; Amar, verbo intransitivo (1926) e Macunaíma (1927), romances; Contos novos (1947), contos; Aspectos da literatura brasileira (1943), ensaios.  

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

De Joaquim Cardozo


Cajueiros de setembro


Cajueiros de setembro,
Cobertos de folhas cor-de-vinho,
Anunciadores simples dos estios
Que as dúvidas e as mágoas aliviam
Aqueles que como eu vivem sozinhos.

As praias e as nuvens e as velas de barcaças
Que vão seguindo além rumos marinhos
Fazem com que por tudo se vislumbrem
Luminosos domingos em setembro,
Cajueiros em folhas cor-de-vinho.


Presságio, amor de noites perfumadas
Cheias de lua, de promessas e carinhos,
Vivas canções serenas e distantes,
Cajueiros de sombras inocentes
Debruçados à beira dos caminhos.

(Poemas, 1947)


Joaquim Cardozo (1897-1978) – Nasceu em Recife (PE) e morreu em Olinda (PE). Escreveu e publicou pouquíssimo: Poemas (1947), Signo estrelado (1960), Trivium (1970) e Mundos paralelos (1970).