Dedicado a Helena Terra

domingo, 27 de dezembro de 2015

De Carlos Drummond de Andrade


No meio do caminho


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Alguma poesia, 1930)



Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – Nasceu em Itabira (MG) e, após estudar em Petrópolis (RJ) e Belo Horizonte (MG), mudou-se para o Rio de Janeiro (RJ), onde viveu toda o resto da vida. Também cronista e contista, publicou mais de trinta livros de poemas. Como destaque podemos citar: Alguma poesia (1930), Brejo das almas (1934), Sentimento do mundo (1940), A rosa do povo (1945), Claro enigma (1951), Lição de coisas (1962) e As impurezas do branco (1973).
   

domingo, 20 de dezembro de 2015

De Machado de Assis


Soneto de Natal


Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

(Ocidentais, 1880)


Machado de Assis (1839-1908) – Nasceu e sempre viveu no Rio de Janeiro (RJ). Um dos maiores escritores de todos os tempos em qualquer língua, publicou romances, contos, crônicas, ensaios e peças de teatro. Entre suas obras, destacam-se: Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899), romances; Papéis avulsos (1882), Histórias sem data (1884) e Relíquias da casa velha (1906), contos; e Poesias completas (1901).



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

De Henriqueta Lisboa



Orgulho


Pago caro o orgulho
de buscar na vida
aquilo que busco.

Desdenho a fumaça
que oscila no vento:
nas mãos, na consciência
tenho cinza fria.

Às impuras águas
plasma qualquer forma:
e agonizo lenta
com sede nos lábios.

Pago caro o orgulho
de querer perfeita
minha vida efêmera.

(A face lívida, 1945)



Henriqueta Lisboa (1901-1985) - Nasceu em Lambari (MG), mas viveu quase toda a vida em Belo Horizonte (MG), atuando como professora de literatura e tradutora. Escreveu poesia para adultos e crianças. Entre mais de uma dezena de seus livros, destacam-se: Fogo-fátuo (1925), Prisioneira da noite (1941), O menino poeta (1943), A face lívida (1945) e O alvo humano (1973). 


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

De Tomás Antônio Gonzaga


Marília de Dirceu 
(Parte II - Lira 4)



Já, já me vai, Marília, branquejando
loiro cabelo, que circula a testa;
este mesmo, que alveja, vai caindo,
       e pouco já me resta.

As faces vão perdendo as vivas cores,
e vão-se sobre os ossos enrugando,
vai fugindo a viveza dos meus olhos;
       tudo se vai mudando.

Se quero levantar-me, as costas vergam;
as forças dos meus membros já se gastam;
vou a dar pela casa uns curtos passos,
        pesam-me os pés, e arrastam.

Se algum dia me vires desta sorte,
Vê que assim me não pôs a mão dos anos:
os trabalhos, Marília, os sentimentos,
        fazem os mesmos danos.

Mal te vir, me dará em poucos dias
a minha mocidade o doce gosto;
verás brunir-se a pele, o corpo encher-se,
        voltar a cor ao rosto.

No calmoso verão as plantas secam;
na primavera, que aos mortais encanta,
apenas cai do céu o fresco orvalho,
       verdeja logo a planta.

A doença deforma a quem padece;
mas logo que a doença faz seu termo,
torna, Marília, a ser quem era d’antes,
       o definhado enfermo.

Supõe-me qual doente, ou qual a planta,
no meio da desgraça, que me altera:
eu também te suponho qual saúde,
       ou qual a primavera.

Se dão esses teus meigos, vivos olhos
aos mesmos astros luz e vida às flores,
que efeitos não farão em quem por eles
       sempre morreu de amores?

(Marília de Dirceu, Parte II, 1799)






Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) – Nascido no Porto (Portugal), veio para o Brasil, órfão de mãe, aos sete anos, acompanhando o pai, morando primeiro em Pernambuco e depois na Bahia. Voltou em 1761 para Portugal, onde estudou Direito, lá permanecendo por 21 anos. Em 1782, estabeleceu-se como ouvidor em Ouro Preto (MG). Um dos líderes da Inconfidência Mineira, foi preso e degredado. Morreu no exílio, em Moçambique. Deixou, além das liras de Marília de Dirceu (1792 e 1799), a sátira Cartas chilenas (1789, mas publicadas na totalidade em livro somente em 1863).

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

De João Cabral de Melo Neto



O cão sem plumas - IV
(Discurso do Capibaribe)


Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).

(O cão sem plumas, 1950)




João Cabral de Melo Neto (1920-1999) – Nasceu em Recife (PE), e morou, como diplomata, em vários lugares do mundo, vindo a falecer no Rio de Janeiro. Essencialmente poeta, entre seus diversos títulos destacam-se: O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Morte e vida severina (1955), A educação pela pedra (1960), Museu de tudo (1975) e Sevilha andando (1990).


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

De Adélia Prado



Poema esquisito


Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.

(Bagagem, 1976)



Adélia Prado (1935) - Nasceu e vive em Divinópolis (MG). Poeta e ficcionista com mais de duas dezenas de livros publicados. Entre os mais significativos estão: Bagagem (1976), O coração disparado (1978) e Terra de Santa Cruz (1981), poemas, e Solte os cachorros (1979) e Manuscritos de Filipa (1999), ficção.



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

De Oswald de Andrade


Soidão



Chove chuva choverando
Que a cidade de meu bem
Está-se toda se lavando

Senhor
Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
Que dorme numa cadeira
À espera de visitas que não vêm

Chove chuva choverando
Que o jardim de meu bem
Está-se todo se enfeitando

A chuva cai
Cai de bruços
A magnólia abre o pára-chuva
Pára-sol da cidade
De Mário de Andrade
A chuva cai
Escorre das goteiras do domingo

Chove chuva choverando
Que a cidade de meu bem
Está-se toda se molhando

Anoitece sobre os jardins
Jardim da Luz
Jardim da Praça da República
Jardim das platibandas

Noite
Noite de hotel
Chove chuva choverando

(Primeiro caderno de poesia do aluno Oswald de Andrade, 1927) 



Oswald de Andrade (1890-1954) - Nasceu em São Paulo (SP), onde morou a vida inteira, com ocasionais viagens à Europa. Também romancista, ensaísta, cronista e dramaturgo, publicou, entre outros, Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933), romances, e Pau-Brasil (1924) e Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (1927), poemas.