Dedicado a Helena Terra

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

De Eloésio Paulo


Ano novo 


Dia primeiro de janeiro
a caminho de Areado
um andarilho sujo e barbudo
era alimária para fardos de aniagem
de diversos tamanhos e formatos.

Ao estranho parangolé
estranhavam meu rosto barbeado
e minha desnecessidade peripateta
de provisões para mais
que cinco horas de estrada

Além disso ele ia
eu voltava


(Jornal para eremitas, 2012)




Eloésio Paulo (1965) - Nasceu em Areado (MG), mora em Alfenas (MG), onde é professor universitário. Estreou em 2000, com Primeiras palavras do mamute degelado, e publicou outros quatro títulos: Cogumelos do mais ou menos (2005), Inferno de bolso etc (2007), Jornal para eremitas (2012) e Homo ereticus (2013).



sexta-feira, 27 de novembro de 2015




De Vicente de Carvalho


Velho Tema (I)



Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora  feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a 

                                                     [pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.


(Poemas e Canções, 1908)





Vicente de Carvalho (1866-1924) - Nasceu em Santos (SP), morou em Franca (SP) e em São Paulo, onde exerceu o cargo de juiz de direito e ministro do Tribunal de Justiça. Morreu em sua cidade-natal. Entre seus livros destacam-se Ardentias (1885)e Relicário (1888).

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

De Alphonsus de Guimaraens


A Catedral 


Entre brumas, ao longe, surge a aurora.
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
       Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu risonho,
       Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
       "Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
        Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a bênção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
       "Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
       Põe-se a luz a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu tristonho,
       Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
       "Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
E a catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
        Como um astro que já morreu.

E o sino geme em lúgubres responsos:
      "Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

(Pastoral aos crentes do amor e da morte, 1923)

Alphonsus de Guimaraens (1870-1921) - Nasceu em Ouro Preto (MG), estudou Direito em São Paulo, e, após se formar em 1895, mudou-se para Conceição do Serro (MG), onde exerceu os cargos de juiz-substituto e promotor. Em 1906, nomeado juiz, transferiu-se para Mariana. Em 1899, publicou Setenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara Ardente e Dona Mística. Em 1902, aparece Kyriale e, em 1920, Mendigos (poemas em prosa). 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

De Álvares de Azevedo 


Tristeza 


Eu deixo a vida como deixa o tédio 
Do deserto o poente caminheiro; 
Como as horas de um longo pesadelo 
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como um desterro de minha alma errante, 
Onde o fogo insensato a consumia... 
Só levo uma saudade é desses tempos 
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade é dessas sombras 
Que eu sentia velar nas noites minhas... 
De ti, ó minha mãe, pobre coitada, 
Que por minha tristeza te definhas!

Descansem o meu leito solitário 
Na floresta dos homens esquecida, 
À sombra de uma cruz  e escrevam nela: 
Foi poeta, sonhou e amou na vida...



Álvares de Azevedo (1831-1852) - Nasceu em São Paulo (SP), passou a infância no Rio de Janeiro, mas em 1847 voltou para a cidade-natal para estudar. Embora tenha morrido com 21 anos incompletos, deixou uma peça de teatro (Macário), um livro de contos (Noite na taverna) e uma coletânea de poemas (Lira dos vinte anos).

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

De Cláudio Manuel da Costa


Soneto VII


Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado? 
Tudo outra natureza tem tomado; 
E em contemplá-lo tímido esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço 
De estar a ela um dia reclinado: 
Ali em vale um monte está mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes, 
Que faziam perpétua a primavera: 
Nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era:
Mas que venho a estranhar, se estão presentes 
Meus males, com que tudo degenera!

(Obras poéticas de Glauceste Satúrnio, 1768)







Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) - Nasceu em Mariana (MG), estudou em Coimbra entre 1749 e 1754, quando radicou-se em Ouro Preto, onde, em circunstâncias obscuras, morreu na prisão, por seu envolvimento na Inconfidência Mineira. Publicou vários livros de poemas, entre eles Epicédio (1753), Obras poéticas de Glauceste Satúrnio (1768) e Vila Rica (1779).

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

De Iacyr Anderson Freitas


O anúncio apenas



Tudo é sempre despedida.

Nenhuma hora
é própria para a dança.

Os bilhetes de passagem,
a sinalização das ruas,
as avenidas e os parques
indicam apenas a partida.

Caminho nenhum
é caminho de volta.

Esse sol já se perdeu,
o minuto em que escrevo
(em que alguém
do outro lado desta página
apalpa o fruto avesso que escrevo)
esse minuto também já se perdeu.

Só essa tristeza
sem sentido ou forma
permanece a meu lado

e me guia pelas mãos
desde o azul primeiro
dos primeiros dias:

enorme, devorando cada palmo
de entrega, cada manhã
ante o amor que não cessa,
com o seu sono tomado
de aguda indiferença.

Agora é quase um barco
na direção da noite,
diante dos muros altos de febre

e sobre um mar
eternamente aberto para o passado.

Aberto à indiferença que somos e seremos.
Espelho vivo
de onde rompe essa tristeza,
como o anúncio de algo terrível,

mas anúncio apenas,
sem consequência ou crime.       



(A soleira e o século, 2002)
.




Iacyr Anderson Freitas (1963) - Nasceu em Patrocínio do Muriaé (MG), mas mora em Juiz de Fora (MG) desde 1978. Tem duas dezenas de coletâneas de poemas publicadas, além de ensaios, infantis e contos. Entre seus livros, destacam-se Lázaro (1995), Mirante (1999) e Ar de arestas (2013).

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

De Cruz e Sousa


Litania das pobres



Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
Dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,
Cegos, a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos
E varando o céu de gritos.

Faróis à noite apagados
Por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços
Pedindo amor aos Espaços.

Mãos inquietas, estendidas
Ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício
Condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento
Dilúvio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza
Das culpas da Natureza.

Ó pobres! Soluços feitos
Dos pecados imperfeitos!

Arrancadas amarguras
Do fundo das sepulturas.

Imagens dos deletérios,
Imponderáveis mistérios.

Bandeiras rotas, sem nome,
Das barricadas da fome.

Bandeiras estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.

Fantasmas vãos, sibilinos
Da caverna dos Destinos!

Ó pobres! o vosso bando
É tremendo, é formidando!

Ele já marcha crescendo,
O vosso bando tremendo...

Ele marcha por colinas,
Por montes e por campinas.

Nos areiais e nas serras
Em hostes como as de guerras.

Cerradas legiões estranhas
A subir, descer montanhas.

Como avalanches terríveis
Enchendo plagas incríveis.

Atravessa já os mares,
Com aspectos singulares.

Perde-se além nas distâncias
A caravana das ânsias.

Perde-se além na poeira,
Das Esferas na cegueira.

Vai enchendo o estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.

Como torres formidandas
De torturas miserandas.

E de tal forma no imenso
Mundo ele se torna denso.

E de tal forma se arrasta
Por toda a região mais vasta.

E de tal forma um encanto
Secreto vos veste tanto.

E de tal forma já cresce
O bando, que em vós parece.

Ó Pobres de ocultas chagas
Lá das mais longínquas plagas!

Parece que em vós há sonho
E o vosso bando é risonho.

Que através das rotas vestes
Trazeis delícias celestes.

Que as vossas bocas, de um vinho
Prelibam todo o carinho...

Que os vossos olhos sombrios
Trazem raros amavios.

Que as vossas almas trevosas
Vêm cheias de odor das rosas.

De torpores, d’indolências
E graças e quint’essências.

Que já livres de martírios
Vêm festonadas de lírios.

Vêm nimbadas de magia,
De morna melancolia!

Que essas flageladas almas
Reverdecem como palmas.

Balanceadas no letargo
Dos sopros que vêm do largo...

Radiantes d’ilusionismos,
Segredos, orientalismos.

Que como em águas de lagos
Boiam nelas cisnes vagos...

Que essas cabeças errantes
Trazem louros verdejantes.

E a languidez fugitiva
De alguma esperança viva.

Que trazeis magos aspeitos
E o vosso bando é de eleitos.

Que vestes a pompa ardente
Do velho Sonho dolente.

Que por entre os estertores
Sois uns belos sonhadores.

(Faróis, 1900)



Cruz e Sousa (1861-1898) - Nasceu em Florianópolis (SC), filho de escravos alforriados. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1890 e morreu em Antonio Carlos (MG), onde fora se tratar de uma tuberculose. Em vida, lançou dois livros, Missal e Broquéis, ambos em 1893; postumamente foram publicados, entre outros, Evocações (1898) e Faróis (1900). 


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

De Olavo Bilac


Velhas árvores


Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores mais moças, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera e o inseto à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!




(Alma inquieta, 1902)






Olavo Bilac (1865-1918) - Carioca. Também jornalista, contista e cronista, publicou vários livros de poemas, com destaque para Poesias (1888), Via Láctea (1888), Alma inquieta (1902) e Tarde (1919).